Tenho cada vez mais a certeza de que gosto de fazer trabalhos de mão intemporais, sejam bordados ou patchwork. Projetos que não são apenas para me satisfazer, mas que podem permanecer muito para além de mim (até as malhas se alguém as vier a vestir!). Gosto da ideia de criar peças que contem a minha história, a da minha família e a vida que vivi.
Quando penso nos bordados que faço hoje, imagino-os daqui a muitas décadas. Quem sabe se um dia os meus descendentes não pegarão numa dessas peças e começarão a fazer de detetives? Talvez tentem descobrir quem bordou aquelas iniciais e, depois, com a curiosidade aguçada, se questionem sobre onde é que eu vivia, como era a minha vida e o que me inspirava. É exatamente isso que fazemos hoje quando observamos os antigos samplers: procuramos pistas sobre as pessoas que lhes deram vida, onde e como viviam, o que torna todo o processo ainda mais fascinante.
Depois de muito ponderar, abandonei, por agora, alguns planos que tinha feito em Maio, porque neste momento estou entusiasmada e, ao mesmo tempo, dividida entre dois projetos (também de inglesas) que quero muito começar. E a culpa é da Jackie Ahistrom, com o seu entusiasmo contagiante, as descobertas que vai partilhando e as histórias que vai recontando. Por um lado, quero fazer o Sampler da Beatrix Potter, adaptando-o à minha realidade alterando as iniciais, talvez bordando apenas as dos meus filhos, as minhas e as do Zé. Por outro, sonho com o Sampler da Hannah Whitaker, mas transformando-o numa peça da família Amaral, com as iniciais dos meus pais e dos meus irmãos, acompanhadas por uma frase escolhida por mim. Seria uma adaptação significativa do modelo original, mas faria todo o sentido para as gerações futuras da nossa Família. Aguardo os linhos que encomendei, para escolher entre os que tenho e os que estão para chegar, não tendo, infelizmente, encontrado o linho recomendado.
Enquanto penso nestes novos projetos, lembro-me também de um outro que continua à espera de ser terminado. É um painel muito especial, onde quero bordar uma frase do meu pai: "Só quero um caminho para andar". Nessa peça já comecei a escrever, na ponta da agulha, uma parte da minha própria história. Falta apenas continuar, mas o entusiasmo do meu regresso ao ponto de cruz foi tão grande que acabou por se tornar uma barreira para os outros projetos.
E há ainda outro projeto, uma manta de patchwork feita com as camisas do meu pai, onde quero aplicar/ montar, com retalhos de tecido, aviões. Ainda me falta a força emocional para pegar na tesoura e começar a transformar as camisas do "pilotaço" em aviões. Sei que um dia o farei, mas ainda não chegou o momento.
Todas estas ideias deixam a minha cabeça a mil, o coração com palpitações e vou tendo algumas insónias. Tenho uma certa ansiedade por sentir que o tempo nunca chega para tudo aquilo que gostaria de fazer. Mas também tenho aprendido uma coisa importante: não preciso de esperar pela reforma para me dedicar a estes projetos, na companhia dos meus irmão, na nossa Casa de Família. Não preciso de os terminar rapidamente, posso fazê-los ao ritmo da minha vida. No fundo, o que importa é continuar a fazer, estimular o cérebro e alimentar a minha paixão pelas agulhas. E talvez um dia, quando alguém pegar numa destas peças e se interrogar sobre quem a bordou, encontre ali muito mais do que um bordado. Encontre uma vida vivida em família, numa família numerosa, onde estão presentes pais, avós, filhos, netos, irmãos, tios e sobrinhos. O que me levou a terminar assim este exercício de escrita, que já vai longo e que era só para arrumar ideias e desacelerar?* Porque queria terminar a minha linha de pensamento, não com um ponto final, mas com fotografias que hoje partilhámos entre irmãos, sinalizando o Dia dos Irmãos — o melhor presente que os meus pais me podiam ter dado!
























































