quinta-feira

Malha para descansar os olhos

Regressei à malha com um modelo da designer neozelandesa Libby,  Truly Myrtle, que sigo há bastante tempo e cujos trabalhos admiro muito. No entanto, sempre achei que os seus modelos não se adequariam à minha realidade — tanto pelo clima diferente do de Portugal como pela dificuldade em encontrar os fios recomendados pela designer. 

Estava redondamente enganada! Afinal, a designer até viveu em Inglaterra, onde facilmente consigo ter acesso aos fios recomendados pela Libby através da minha filha.

Não preciso propriamente de mais modelos de Inverno, mas apercebi-me de que tenho poucas peças de meia-estação. Assim, escolhi um modelo de manga curta, Paloma, perfeito para o clima aqui de Sintra, trabalhado numa mistura de lã e linho, fio Merilin da Isager que adquiri na DotQuiltsA escolha do fio surgiu da enorme curiosidade que tinha em experimentá-lo, depois de a Luísa o ter referido como um dos seus fios de eleição.

Troquei algumas mensagens com a Luísa para confirmar se seria adequado ao projecto e, depois disso, restava apenas decidir a cor… ou melhor, apenas não foi bem a palavra certa, porque a escolha revelou-se difícil, dada a oferta de cores lindíssimas! 

De seguida, gostava de experimentar o modelo Sweet Melody, feito com uma mistura de BFL e seda, que cria um tecido com bom drapeado e um leve brilho.

O ritmo tem sido lento, já que faço malha sobretudo para descansar os olhos do ponto de cruz. Até poderia dizer que não tenho pressa em terminar a camisola Paloma, mas estaria a mentir. Gostava muito de a estrear no Dia da Mãe — algo que já percebi ser impossível —, por isso estabeleci um novo objectivo: o dia 9 de Maio, aniversário da minha filha Madalena.

Agora é deixar as agulhas trabalharem e aproveitar o caminho até à última malha.

sábado

Perguntei à IA sobre o ponto de cruz

Ackworth School

Tenho dois esquemas de ponto de cruz à minha espera. Ainda não começaram a ganhar forma no bastidor, mas já ocupam espaço nos meus pensamentos. Acabaram por levar-me a pesquisas que queria fazer desde que acompanho as partilhas da Nicola Parkman.  

Nunca bordei com fio de seda. Também nunca trabalhei num linho tingido à mão com trama de 40ct. Só de pensar nisso sinto uma mistura de entusiasmo e receio de falhar. Decidi que, antes de partir para um esquema que implicaria um grande investimento, vou começar pelo esquema mais simples, o do S. A inicial será adaptada: não um S de Sampler, mas um S de Sofia. Um pequeno gesto de apropriação, é como assinar a peça antes mesmo de a começar. Será também o meu primeiro contacto com o fio de seda Soie 100.3 — uma grande expectativa e curiosidade à espera de se transformarem em experiência.

Depois virá a escolha difícil: o Sampler da Hanna Whitaker ou um da Nicola Parkman,  da Hands Across the Sea Samplers. Por agora, ficam no território dos planos. Não quero iniciar mais nenhum trabalho que dependa da lupa.

Ficam aqui as respostas que obtive da IA. Continuo a olhar para estas ferramentas com espírito crítico, mas algumas informações consegui confirmá-las nas partilhas generosas da Nicola Parkman, onde tenho aprendido tanto. No fundo, continuo a fazer o que sempre fiz: pesquisar, comparar, questionar … e, sobretudo, sonhar com os próximos pontos antes de os bordar.

IA:

O ponto de cruz foi uma das formas de bordado mais importantes da época vitoriana (1837–1901). Para além de um trabalho manual, era uma prática profundamente enraizada na educação feminina e na cultura doméstica, sendo usado para ensinar disciplina, paciência e precisão.

O papel do bordado na sociedade vitoriana

O bordado fazia parte da formação das jovens, especialmente através dos chamados samplers. Estas peças eram exercícios educativos onde se praticavam alfabetos, números, padrões decorativos e frases morais ou religiosas. Muitas vezes incluíam o nome da bordadeira, a idade e a data, funcionando também como registos pessoais.

Estes trabalhos eram valorizados não apenas pela técnica, mas também pelo significado simbólico e pela demonstração de virtudes sociais.

Materiais utilizados

Os materiais mais comuns incluíam:

Tecidos

  • Linho contado fio a fio (o mais utilizado)
  • Algodão
  • Canvas de lã para peças decorativas maiores
  • Tecidos de trama regular (evenweave)

Fios

  • Seda para trabalhos mais delicados
  • Lã crewel para peças decorativas
  • Algodão tingido com corantes naturais
  • Pigmentos obtidos de fontes como índigo, cochonilha e cascas vegetais

Ferramentas

  • Agulhas de aço
  • Bastidores de madeira
  • Tesouras pequenas e acessórios de costura

Características do bordado vitoriano

Os bordados desta época apresentavam:

  • pontos pequenos e regulares
  • composições organizadas, mas com variações manuais
  • uso de espaços abertos no tecido
  • paletas de cores suaves e naturais

A execução valorizava o processo e o cuidado manual, mais do que a perfeição mecânica.

Motivos e temas recorrentes

Os motivos mais frequentes incluíam:

  • alfabetos completos e números
  • flores e plantas simbólicas
  • pássaros e animais
  • casas e paisagens rurais
  • padrões geométricos e molduras decorativas
  • versos religiosos ou morais

Estes elementos refletiam valores culturais, familiares e educativos da época.

A linguagem simbólica das flores

A floriografia, ou linguagem das flores, era amplamente utilizada como forma de comunicação simbólica nos bordados:

  • Rosa — amor e devoção
  • Margarida — inocência
  • Hera — fidelidade
  • Lírio — pureza e virtude
  • Tulipa — amor declarado
  • Miosótis — memória e saudade

As flores podiam ser combinadas para criar mensagens implícitas, permitindo expressar sentimentos de forma subtil através do desenho.

Estrutura dos samplers

Os samplers seguiam geralmente uma organização típica:

  • alfabetos e números no topo
  • motivos decorativos no centro
  • frases morais ou religiosas
  • identificação da bordadeira com nome, idade e data

Estas peças funcionavam como exercícios de aprendizagem e também como registos pessoais e familiares.

Importância cultural

O ponto de cruz vitoriano tinha um forte valor social e educativo. Era uma prática que unia técnica, simbolismo e identidade pessoal, preservando em tecido elementos da vida quotidiana, crenças e emoções da época.

Cada peça era única e refletia tanto a habilidade da bordadeira como o contexto cultural em que foi criada.


Depois de obter resposta para a Época Vitoriana, perguntei 

🧵 O que é o estilo Quaker no ponto de cruz?

bordado Quaker é um tipo específico de sampler desenvolvido entre os séculos XVIII e XIX, sobretudo em Inglaterra e na América do Norte.

Era produzido principalmente por jovens raparigas em escolas Quaker como parte da educação moral e prática.

domingo

Preencho o vazio do tempo, ponto a ponto, pensando a casa como refúgio e herança emocional



Depois da pausa da Páscoa, da partida dos expatriados e do regresso ao ritmo das aulas, preenchi a mente — e um caderno de apontamentos — com projetos para tornar a nossa casa mais acolhedora, um refúgio e herança emocional. Uma casa com espaços pensados para cada um, personalizada com peças bordadas ou costuradas por mim, para que um dia as herdem e eu permaneça, de alguma forma, em todas as casas.
Capa do caderno de notas bordada e feita por mim, há uns anos. Entretanto já caíram as missangas do bordado!

Valfenda, refúgio élfico , um lugar de descanso, sabedoria e cura- um verdadeiro porto seguro, o que explica porque a expressão Last Homely House é tão evocativa para quem pensa a casa como refúgio e herança emocional
 

Tenho grandes planos de renovação para a casa, mas sinto-me de mãos atadas pela falta de profissionais disponíveis para trabalhar em obras de remodelação. Enquanto espero vou registando ideias e afinando as escolhas de materiais. 

Mas as mãos estão livres para bordar — e é isso que tenho feito. Vou iniciar o segundo esquema da  Loose Feathers Series — For the Birds, embora ainda não tenha concluído o primeiro esquema It's Spring Time. O título do segundo esquema, The Light Upon The Lawn, foi inspirado num poema de Emily Dickinson,  A Light Exists in Spring.


A Light exists in Spring
Not present on the Year
At any other period –
When March is scarcely here
A Color stands abroad
On Solitary Fields
That Science cannot overtake
But Human Nature feels.
It waits upon the Lawn,
It shows the furthest Tree
Upon the furthest Slope you know
It almost speaks to you.
Then as Horizons step,
Or noons report away
Without the Formula of sound,
It passes, and we stay –
A quality of loss
Affecting our content
As Trade had suddenly encroached
Upon a Sacrament.

Esta semana será dedicada The Light Upon the Lawn. Os azuis, verdes, cremes/beges deste projeto são muito semelhantes às do SAL, GH 1857, em que estou a participar. Não estou a seguir a sequência proposta mensalmente, sem disciplina alguma, vou bordando onde sinto curiosidade de ver surgir determinado desenho e jogo de cores. Finalmente tenho um bastidor de pé, o que me dá imenso conforto e permite-me estar horas a fio a bordar.


Adquiri o pdf para não me enganar nos símbolos das cores, algo que aconteceu logo no início. Não fui a única a enganar-me e a sugestão do pdf li no grupo do SAL.