quinta-feira

Acima de tudo, é Terapêutico!


Os livros que tenho lido, os chás que os acompanham e o que tenho nas agulhas.

Uma pausa, uma fotografia para vos mostrar de onde escrevo, a mesa carregada com os meus "bens essenciais e terapêuticos"

Os livros que aguardam um pouco mais do meu tempo, a camisola que ficou em pausa até terminar os projectos para o meu próximo neto

Ver séries ao ritmo das agulhas, ler no comboio e escrever um pouco aqui, acima de tudo são actividades terapêuticas, e é disso mesmo que estou a precisar. Todos vivemos tempos difíceis, mas nem todos temos a mesma forma  de os encarar. Eu não tenho a mesma forma de os encarar nem sequer ao longo do dia! Acordo e faço o meu "exercício de gratidão", tomo o pequeno-almoço e dedico uns minutos ao meu yoga, que é como quem diz, às minhas agulhas. Apesar de tudo,  até aqui , tudo corre bem. Passo pela nossa casa, ainda em obras, e fico feliz apenas com a visão das minhas novas vizinhas.

Assim que deixo a minha aldeia e tomo o caminho para a estação, começam os meus lamentos e a minha revolta. Como professora, sinto-me "carne para canhão", sem vacina ou condições de trabalho. Apanho o comboio e pego num livro, envolvendo-me na vida das personagens e esquecendo os riscos que estou a correr. À chegada a casa dos meus pais é sempre o mesmo receio e os mesmos pensamentos, desinfectando-me na medida do possível. Sentir que eles precisam de mim e que estou presente, faz valer apena os riscos. O coração fica pequeno quando me tenho de despedir para ir para a escola. O meu pai sempre com a mesma pergunta "E tens mesmo de ir? Porque é que não ficas mais um bocado? Aparece mais vezes!". A minha mãe, pacientemente, diz que os visito todos os dias. Sigo para a escola angustiada por saber que tenho de aprender a aceitar o meu pai sem memória, perdido, a tentar preencher o seus dias, mansamente lutando por uma independência que lhe foi definitivamente vedada. Na escola os alunos recebem-me com um sorriso escondido pela máscara, com  uma animação constante e própria da idade, passando-lhes ao lado aquilo a que chamam por aí "a nova normalidade". Sinto-me com forças e deito mãos à obra, ao que nasci para fazer, ensinar. Tudo corre bem até ao momento em que esbarro "naquele" aluno que me tira do sério e que me faz por em causa o que estou ali a fazer, correndo o risco enorme de me contaminar e de contaminar aqueles que mais amo. Obrigo-me a pensar nos restantes alunos, na verdade, a maioria dos meus alunos. Obrigo-me a arranjar força para essa maioria, mas não é nada fácil. 

Regresso a casa embrenhada na vida das personagens, sou uma intrusa numa pequena aldeia inglesa e volto a sentir-me segura, sem o estar. Acompanha-me uma falsa sensação de falta de ar, um peso no peito, sensações constantes no final dos meus dias. Um mal estar que não desiste de me perseguir! 

Chego a casa, tomo um banho quente, janto e pego de novo nas minhas agulhas e vejo séries até o sono chegar. E assim vivo estes tempos difíceis, conseguindo "desligar" com a leitura e "descomprimir" com as agulhas. Os meus trabalhos de mão, acima de tudo, são terapêuticos! Não preciso de mais camisolas ou casacos, nem de bordados ou mantas de patchwork. As minhas mãos não param porque são elas que mantêm o meu equilíbrio emocional. Apenas os trabalhos que faço para os meus netos é que são efectivamente necessários, ainda assim têm também uma componente terapêutica.

O fim-de-semana passado, resolvi aceitar, pela primeira vez, um teste de tricot de uma designer portuguesa, a Sandra Magalhães, de "Agasalhos e Bugalhos". Testar um modelo vai dar um novo sentido/propósito ao próximo trabalho de malha, à minha próxima dose de "terapia". Irei iniciar assim que terminar o que tenho em mãos, enquanto vejo mais uns episódios da série "Modern Love", na Amazon Prime. A série foi sugerida pela Julie das Knitters League, e como me identifico imenso com ela resolvi experimentar ver um episódio e depois seguiram-se os outros. Recomendo, também na Amazon Prime, "Same Kind of different as me" e "The neigbhor's Windom".

Malha, livros, filmes e séries, são a prescrição  para a minha terapia de combate à ansiedade, uma "automedicação" que tem resultado, mas que não tem sido suficiente. Talvez seja apenas uma questão de reforço da dose!

quarta-feira

Praticar "gratidão" para me sentir feliz

Nasci a 1 de Janeiro de 65, sendo o final de ano verdadeiramente uma passagem para um Ano Novo. Tentada a despedir-me de 2020 sem vontade de guardar memórias, recuei e olhei para o ano que termina com outros olhos, tentando sentir-me, apesar de tudo, grata. Quando aposto em sentimentos de gratidão tomo consciência de quanto sou feliz. Não é fácil! Perdi parte do meu paizoco num acidente, mas sinto-me grata por ir festejar mais um aniversário no aconchego do seu carinho, trocando olhares cúmplices, que esses não se perderam (apenas memórias, mas vivo com o meu pai o presente). Foi um ano sem abraços e beijos, mas nunca me senti só. Foi um ano assustador mas consegui  rir e sorrir, em família e na escola. Foi um ano de perdas, mas seguiu a lei natural da vida. As pessoas brincaram que seria o ano dos bebés e eu tive a alegria de ser avó e a família contínua a acrescer. Vendi a casa da cidade e estou a mudar-me para a "minha" Serra. Ainda sem casa, com muitas peripécias pelo meio, contratempos e muita coisa nada a meu gosto, mas tudo se compõe com tempo. O meu filho conseguiu seguir o seu sonho, já traçou o seu caminho e sinto-o feliz. Feito um balanço, interiormente mais profundo, posso afirmar que estou Feliz, não de uma forma forçada mas fruto de sentimentos de Gratidão. Sendo uma pessoa que vive cativa dos números tenho esperança que o ano em que faço 56 anos, "espelho" do ano em que nasci, seja mais um ano em que "reinvento a felicidade", como dizia a minha avó Teresa. Quero acreditar que será um ano em que tudo se alinha e reequilibra. Tenho fé no Novo Ano e escolho como temperos, para a receita perfeita de 2021, com aquele gosto especial que se quer no coração e na memória, a gratidão, a fé e a prática de viver (intensamente) o presente, sem esquecer a prática de uma vida saudável porque a saúde nunca deve faltar! 

No Novo Ano tentarei partilhar parte do dia-a-dia de uma avó que se mudou para o campo, tentando viver de uma forma mais serena, sustentável, "lenta", criativa  e saudável. Tenho lido e visto muita coisa, mas dos estudos teóricos quero passar à prática e são esses resultados que pretendo partilhar com vocês. Não prometo nada porque cada vez afasto-me mais deste teclado, mas estou a tentar conciliar-me com o meu portátil que não tem culpa nenhuma da fase do ensino a distância. 

Até breve amigos leitores, mas sem promessas.

Feliz Ano 2021!




domingo

Na tranquilidade sinto-me segura


Nos tempos que correm ser professora é estar todos os dias com assintomáticos e acreditar que todos os cuidados da escola e na escola nos protegem. É muito desgastante e quando o dia de aulas termina estou por um fio, de tanto ter esticado a corda das minhas capacidades de representação no palco que é uma sala de aula. O toque para a entrada é o sinal para a subida do pano, quero prender os alunos à aula, conto-lhes as aventuras de Wegener, realço a sua coragem e camaradagem com os colegas de expedição, apresento-lhes a Teoria da Deriva Continental e deixo-os em suspenso em relação às respostas encontradas nas fragilidades dos seus argumentos. Normalmente é fácil transmitir o meu entusiasmo mas tem sido extremamente difícil comunicar só com a voz e os olhos, ainda que recorra a muitos gestos. Outra nova barreira com que tenho de lidar é o impedimento de circulação na sala de aula. E os rostos deles! Nunca os vi! Vejo os olhares que me dizem muito mas não revelam tudo. Sinto a agitação no balançar das cadeiras, nas mesas que de repente ficaram mais juntas, nos braços esticados no ar, nos atropelamentos das questões. Mas e aqueles que nem que eu fizesse o pino se interessam por ciências, tentando boicotar uma aula escondidos atrás de uma máscara! Esses que não reconhecem o esforço a que os professores são obrigados a fazer, não respeitam os riscos que estamos a correr para que eles e os pais continuem a viver dentro de uma certa normalidade, esses que normalmente são aqueles que não conhecem regras e que os pais só os querem é despejar na escola, como se fosse o contentor dos malcriados indesejados. Embora se contem pelos dedos os alunos assim caíram todos na mesma turma e na aula teórica do final do dia, estico a corda com este esforço final e fico por um fio.

Respiro fundo mal passo o portão da escola, caminho em passos rápidos até à estação de comboio e no meu "canto de leitura" retomo alguma tranquilidade abstraindo-me do que me rodeia, mergulhada nas vidas das personagens que vieram comigo até Lisboa. Para Lisboa vim com a avó da Laura, num tempo distante, vivido numa Bath bombardeada pelos nazis, onde coragem, determinação, solidariedade e amizade são as palavras que melhor vestem à avó de Laura e à sua amiga. No regresso a casa vivo na actualidade com a Laura, uma mulher que se reinventa após as filhas terem saído de casa e mais não revelo, sugerindo a leitura de "Receita de família", uma leitura com a qual retomo a tranquilidade onde me sinto segura.

Ao serão é o ritmo das agulhas que me distrai enquanto vejo séries. Esta semana recomendo "Gambito de Dama", reveladora do poder da amizade, da importânciados laços que criamos na vida (embora esteja classificada com "consumo de álcool e substâncias ilícitas" penso que os mais novos poderão devem ver desde que devidamente acompanhados).

Nas agulhas nasce uma camisola, modelo simples com fio que não é 100% natural, nada do que habitualmente faço, mas o fio Invicta (cor 13) é agradável de trabalhar e embora precise de camisolas simples, básicas e de cores sólidas, a espera da lã norueguesa, e o facto de não ter conseguido adquirir (dificuldades com o paypal) o modelo Shifty Andrea Mowry no Ravelry , teve como resultado esta camisola colorida e 3 meadas de Douro  aguardando um outro destino.

E assim vivo em tempo de pandemia, no sossego do campo, encontrando nos livros e nas minhas agulhas a tranquilidade, a morada onde me sinto segura.

sábado

Gracias a la Vida

A pouco e pouco a vida muda e a reconquista de uma felicidade plena, vivendo no momento, sai de forma espontânea, sem esforço algum da nossa parte. Os problemas, praticamente diários, com a obra da casa, têm sido ultrapassados, muitas vezes não a nosso gosto mas estamos numa fase em que nada nos entristece, porque o pensamento é sempre "depois mudamos". Já olhamos para a aldeia como "a nossa aldeia" onde, quase tudo, tem o seu encanto.
As minhas rotinas abraço-as como dádivas diárias: o caminho até ao comboio com o qual me deslumbro diariamente, tendo por companheiras de viagem as personagens dos livros, forçadas a esperar uma tarde de aulas para o nosso reencontro no final do dia, a Serra que me recebe* na penumbra com o seu encanto único de palácios e castelos por vezes emoldurados por neblina, outras vezes mergulhados em nuvens fantasmagóricas, a meio caminho do regresso a casa, Monserrate iluminado em todo o seu esplendor. Ao chegar a casa recebem-me as noites serenas impregnadas do cheiro das lareiras, o som do mar ao longe a embalar-nos. Por tudo isto e muito mais sinto vontade de cantar "Gracias a la vida" de Joan Baez.

Bisneto e bisavô

As minhas idas diárias a Lisboa têm um lado muito bom, os passeios de manhã com o meu paizoco, o meu herói, o sobrevivente muito além do imaginado, um dos homens, aos meus olhos, mais doce e terno. 

Tenho tido menos tempo para mim em casa, é uma realidade. No que se traduz esta falta de tempo? Em menos tempo para as agulhas, mas em compensação nunca li tanto, são 40 minutos de leitura para Lisboa e 40 minutos de leitura no regresso a casa. A verdade é que os livros foram o meu primeiro vício e com as agulhas a meterem-se no meio, os livros passaram a ocupar, praticamente, só a leitura de cabeceira. Estou contente com esta mudança, que será apenas temporária, pois conto para o ano conseguir colocação numa escola de Sintra.
Ainda assim, tenho tido tempo para terminar alguns trabalhos para o meu "peixinho", como chamo ternurentamente ao meu neto que irá nascer no início de Março. Ainda não foi hoje que arranjei tempo para falar dos meus trabalhos e agulhas, mas prometo que fica para breve. Para quem gosta de malha e leitura leve recomendo "Laços de Vida", um livro onde as amizades nascem numa Retrosaria, em volta de uma mesa onde se tecem gorros para bebés prematuros, algo que me fez lembrar o projecto da Filipa Carneiro. 
De momento leio "Uma Receita de Família"
Os livros que tenho lido são recomendações da Rachael, no podcast Sewrayme

* o telemóvel não capta o que os meus olhos vêem!

terça-feira

Sózinhos em casa! E agora?

Deixámos a nossa casa de há 20 anos, eu num misto de emoções, o Zé todo entusiasmado resultado do cansaço de viver num prédio. A verdade é que fui extremamente feliz numa casa situada numa pequena aldeia, dentro de Lisboa, "aldeia" em que nasci e cresci. Foi bom para todos especialmente para os meus filhos. Mas com a saída do meu filho mais novo, o último a sair, é que senti mesmo o "ninho vazio". Termos saído agora da cidade foi como um marco, o fechar de um capítulo, o virar da página, diria mesmo o iniciar do volume II de um romance. Romance que começa agora, num dia-a-dia a dois, numa casa preenchida com silêncios, muito mais tempo juntos nesta fase de teletrabalho, todos os serões apenas os dois, só nalguns finais do dia os filhos "entram" em nossa casa, ou melhor na casa em que estamos a viver só de passagem,  por vídeo chamada. 

O que nos tem ocupado quase todo o tempo são as obras e projectos da nova casa. Ainda assim tentamos implementar rotinas saudáveis, a começar por caminhadas pelo pinhal e arredores, ainda sem ter acertado num horário conveniente para os dois. Estamos indisciplinados mas não importa desde que vamos fazendo as coisas acontecer. Procuramos viver com o mínimo de stress em tempos tão difíceis como estes. 

Apanho o comboio para ir para a escola mas procuro não ficar apreensiva, pego num livro ou nas minhas agulhas e tento enganar o medo de levar o maldito virus para casa dos meus pais, para minha casa.
Noite sobre as águas
Noite sobre as águas de Ken Follett

Contínuo a ir à "minha aldeia" para estar com os meus pais e para dar as minhas aulas, ou melhor, "vender" as minhas aulas por uma pechincha apesar de ter mais de 30 anos de serviço.  Corta Sofia, apaga esses pensamentos negativos, esquece a tua carreira e vive, vive sem stress, sem arrependimentos! Se começar a pensar muito na minha carreira não há motivação que resista e os prejudicados serão apenas os meus alunos e a minha tranquilidade. 

Falar da minha carreira e das condições actuais de trabalho numa escola fez-me perder o fio à meada, terei de ficar por aqui.

A propósito de "meada", voltarei mas para partilhar o que tenho nas minhas agulhas.


sábado

10 10 20 20

 


Sou uma pessoa de números e, como tal, pareceu-me bem estrear o meu novo portátil no dia 10/10 de 2020 voltando a este meu espaço de escrita e partilha. Muito teria para dizer se tentasse recuperar os meses de ausência por aqui, mas não me apetece fazê-lo e não o vou fazer. Retomo começando por revelar que, finalmente, vou deixar a cidade! Se estou eufórica e a explodir de alegria, como era de esperar, não estou. Estes últimos meses foram bastante dolorosos para toda a família, apesar da chegada do neto. O que vivemos fez-me pensar que talvez esteja a mudar na pior altura da minha vida. Agora queria ficar próxima dos meus pais mas já não me é possível mudar de ideias. O que vale é que os meus pais têm uns filhos mais extraordinários do que outros e por isso sei que posso ficar tranquila. 

Felizmente a chegada dos netos reforçou o sentido da mudança para o campo. O desejo de querer construir memórias com eles, numa vivência tranquila, entre a Serra e o Mar, a pouco e pouco devolve-me a alegria de estar a um passo de uma nova etapa da vida. A "estranha forma de vida" que vivo na escola e que vivi durante o isolamento, deu-me igualmente vontade de "fugir" do meu dia-a-dia. Fugir é próprio dos fracos, mas considero que o meu "fugir" foi mais um acto de coragem já que virei costas a um conforto e estabilidade que construí ao longo dos últimos anos. Na família sou vista como a que é diferente, "coisas à Sofia", "só mesmo a Sofia", "Vivias a uns minutos a pé da escola e vendeste a casa?!"...Pois! O sonho vai virar um pesadelo ou uma coleção de desafios e histórias para contar? Só o tempo o dirá!

Entretanto acampo na casa de férias e fins de semana dos meus pais, enquanto vejo de perto a conclusão da nossa casa "Entre a Serra e o Mar".



quarta-feira

Yarn Along - May


Malha:
Quase tudo o que tenho feito tem sido para o meu neto que nasce daqui a uns dias. Os três saquinhos para a maternidade já estão com a minha filha. Só me falta terminar este cão e a roupa, a combinar com a do nosso bebé. 
Detalhes de todos os projectos, na minha conta no Ravelry, Luís's coming Home, Aconchego azul, Verde esperança, Patita e o Cão.
Mas nem toda a malha tem sido para o neto! Finalmente, ganhei audácia suficiente e arrisquei terminar o Xaile, Pássaros da Praia Grande, com as técnicas que domino, dado que nunca recebi nenhuma resposta da designer Christel Seyfarth, quer no Knit Stars, quer pelo Instagram. 
Livros:
Na cabeceira tenho a"Transcrição", mais uma obra magistral da Kate Atkinson. Uma história de espionagem passada entre 1940 e dez anos mais tarde.
Na mesa dos meus trabalhos, La Broderie en 260 points, livro a que recorro sempre que faço um bordadoDesta  vez para bordar os blocos do projecto de patchwork, Here, There and Everywhere.


Tenho saltitado entre todo o tipo de projectos, desencantado alguns esquecidos nas gavetas, outros conscientemente abandonados e de todo não esquecidos. Do ponto de cruz, para o bordado, do bordado para o patchwork, um verdadeiro desatino, reflexo da ansiedade em que vivo. Revi-me no estado de espírito da Sarah, uma das bloggers e podcaster que mais influencia as minhas escolhas! Tal como ela, este saltitar de projectos tem me ajudado, numa altura em que os sinais de saturação vão sendo de dia para dia mais gritantes. Até mesmo na leitura não me consigo concentrar.

Foram poucas as palavras. Esta estranha forma de vida, em que um professor é forçado a comunicar com os alunos pelo computador, só me faz querer distanciar deste teclado!
Ainda assim, não quis deixar de participar no Yarn Along, de Maio.


quinta-feira

Não tenho mais tempo, o tempo ficou apenas diferente!

Com a certeza de que é preciso continuar  faço um esforço diário e incorporo o que tenho de aceitar como "normalidade", nas minhas rotinas diárias, sem grandes sacrifícios mas com alguma preocupação em relação à família.
Com a certeza de que é preciso continuar, tento não me atormentar mantendo as mãos ocupadas. Mas as agulhas direccionam o meu pensamento para os dias do longo internamento em que troquei ideias de bainhas abertas e bordados com enfermeiras pacientes e conversei com médicos dedicados acerca da perfeição dos seus pontos e de formas da recuperação da minha motricidade fina. Enfim, memórias positivas que consigo ter desses dias graças a médicos e enfermeiras/os formidáveis que tive, que temos e que hoje lutam por todos nós. Revolta-me saber que há quem não fique em casa desrespeitando todos os que estão na linha da frente empenhados em defender a nossa saúde!
Talvez por isto e por muito mais, a minha concentração esteja sempre a ser testada e consecutivamente falho. Estando de férias de Páscoa e fechada em casa, aparentemente teria mais tempo, mas não, não tenho mais tempo. Tenho apenas um tempo diferente, uma interrupção, que coloca na minha frente um caminho novo.
Este "tempo diferente" que poderia ser de horas a fio dedicadas a criatividade, tem sido preenchido pela monótona repetição de pontos de meia e liga, tecendo peças em malha para o neto que nascerá em Maio. Hoje tenho nas agulhas um casaquinho com um padrão que tem sido um consolo e, como sigo parcialmente umas instruções, consigo envolver o pensamento numa ténue criatividade. Ainda assim, quando fico cansada da repetição do esquema e me apetece brincar com cores, salto para o Sampler a ponto de cruz.

Depois de Tudo
De tudo ficaram três coisas:
A certeza de que estamos sempre a começar...
A certeza de que é preciso continuar...
A certeza de que seremos interrompidos antes de terminar

Portanto devemos:
Fazer da interrupção um caminho novo...
Da queda, um passo de dança...
Do medo, uma escada...
Do sonho, uma ponte...
Da procura, um encontro.

Fernando Pessoa

quarta-feira

Yarn-Along April

O modelo da esquerda foi criado e tricotado pela minha mãe

Ginny com a iniciativa da rubrica Yarn-Along, é responsável por esta  minha rotina mensal, partilhar os projectos de malha e leituras, desta vez no meu primeiro dia de férias de Páscoa.
Malha
Tenho nas agulhas um projecto a que dei o nome de Verde Esperança, utilizando fio Olívia, sobra de um colete que fiz para mim. As instruções da Petit Knit são muito claras e simples. Como estou a aproveitar um fio que tinha em casa tenho de ir verificando o tamanho com um modelo que a minha mãe fez para o meu filho.
O cão já está na fase de enchimento e costura, ficando a faltar-lhe uma camisola e calças.
Livros
Sempre me interessei por outras culturas/religiões e, sentindo-me fortemente interessada em patchwork, curiosa nas suas mais diversas formas, e motivada para novas aprendizagens, decidi encomendar How to make and Amish Quilt, na Amazon, após ter lido os comentários ao mesmo. Não me decepcionou, antes pelo contrário, estou a adorar e mesmo que não faça nenhum dos projectos, em teoria aprendi imenso e satisfiz, parcialmente, a sede de aprender.
Do país vizinho chegou lã feltrada e o livro Folk-Tails da Sue Spargo, um livro fantástico! O projecto é muito ambicioso mas, o que estou a pensar fazer, são pequenos quadros para colorir um quarto de criança.
Aproveito para partilhar que a Sue Spargo está a publicar diariamente vídeos, com instruções de diversos pontos no Instagram, para ajudar a passar a quarentena a quem gosta de linhas e agulhas.  
Leio e releio The Boy, the Mole, the Fox and the Horse, um livro fabuloso, tentando perceber se, de alguma forma, poderá ser adaptado a um painel bordado, com patchwork.
As filhas do Capitão só comecei a ler ontem e pouco posso adiantar, mas gosto da escrita de Maria Buenas.

Séries e filmes
Além dos episódios da Rosemary and Tyme, no youtube, sigo atentamente um policial no HBO, Liar.
Também na HBO, vi o filme Temple Grandin, o testemunho de vida de uma autista. Um filme interessante, pelo menos para mim, enquanto professora de alguns alunos do ensino especial (apesar de não ter feito formação nessa área!).

Não vou terminar com "Tudo vai ficar bem" palavras que, ao fim de quase três semanas de isolamento, de muito stress pessoal e profissional, estou cansada de ouvir! Um texto motivador vinha a calhar e, se quisesse ter mais seguidores, seria a receita ideal, mas não procuro seguidores e não sei procurar as palavras certas. Também não vou escrever sobre como me sinto, não o saberia fazer. Apenas confesso que não estou a fazer exercício diariamente, não me arranjo como se fosse para a rua, não faço sumos especialmente ricos em vitaminas e minerais, não telefono diariamente a um amigo, não faço nada daquilo que vejo nas redes sociais. E sabem que mais? Não me sinto menos capaz de enfrentar este desafio! A única regra que sigo, das que são constantemente divulgadas, é a consulta das notícias apenas uma vez por dia, para manter a minha sanidade mental. Quem me acompanha aqui desde o início do isolamento, após esta confissão, é gritante a alteração do meu estado "de espírito". Apetece-me dizer palavrões porque as palavras não são suficientemente fortes, não aliviam. Sou de riso e de lágrima fácil, imaginem como ando! Mas quem fica indiferente a tudo isto?
Não vou pedir desculpa pelo desabafo. Poderão pensar que neste contexto não faz muito sentido, mas estou aliviada! Em contrapartida espero que os mais pacientes, que leram até aqui, tirem algum proveito das restantes partilhas.
Estes dias provaram que tenho razão em querer sair da cidade, o que me levou a reactivar o anúncio de venda da nossa casa, numa altura que não faz nenhum sentido, mas nunca se sabe!